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sábado, 16 de janeiro de 2021

Concepções de filosofia Kant Hegel

 Excerto do texto:

O PROFESSOR DE FILOSOFIA: O ENSINO DE FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO COMO EXPERIÊNCIA FILOSÓFICA

RENATA PEREIRA LIMA ASPIS

Filosofia ou filosofar

Para começar propomos que nos dediquemos à clássica questão que se levanta sobre a cisão entre filosofia e filosofar. É clássico citar Kant quando se pretende defender que não é possível ensinar a filosofia, mas sim a filosofar. Para Kant, a filosofia é um saber que está sempre incompleto, pois está sempre em movimento, sempre aberto, sempre sendo feito e se revendo e por isso não pode ser capturado e ensinado: “(...) nunca se realizou uma obra filosófica que fosse duradoura em todas as suas partes. Por isso não se pode em absoluto aprender filosofia, porque ela ainda não existe” (Kant, 1983, p. 407).

O ato de filosofar, por sua vez, seria composto de passos conscientes na análise e crítica dos sistemas filosóficos, exercitando o talento da razão, investigando seus princípios em tentativas filosóficas já existentes. O autor estaria afirmando a autonomia da razão pura, na interpretação corrente de suas colocações. Lemos em Kant, na conhecida Crítica da razão pura: “Só é possível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo-a seguir seus princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os”. Pensamos que não podemos dizer que para Kant é possível separar o filosofar da filosofia já que o proposto exercício da razão deve ser feito sobre os sistemas filosóficos. O professor Guillermo Obiols, depois de analisar a passagem citada, conclui: 

(...) aprender a filosofar só pode ser feito estabelecendo um diálogo crítico com a filosofia. Do que resulta que se aprende a filosofar aprendendo filosofia de um modo crítico, quer dizer, que o desenvolvimento dos talentos filosóficos de cada um se realiza pondo-os à prova na atividade de compreender e criticar com a maior seriedade a filosofia do passado ou do presente (...). Kant não é um formalista que preconiza que se deve aprender um método no vazio ou uma forma sem conteúdo; tampouco se segue que Kant tivesse avalizado a idéia de que é necessário lançar-se a filosofar sem mais nem muito menos a idéia de que os estudantes deveriam ser impulsionados a ‘pensar por si mesmos’, sem necessidade de se esforçar na compreensão crítica da filosofia, de seus conceitos, de seus problemas, de suas teorias etc. (Obiols, 2002, p. 77)

Daquela interpretação de que Kant estaria afirmando a “autonomia da razão filosofante” se contrapõe geralmente o exemplo de Hegel ao afirmar que quando se conhece o conteúdo da filosofia não apenas se está aprendendo a filosofar mas que já se está filosofando propriamente. Daí que para ele não é possível ensinar filosofia sem ensinar a filosofar, assim como não é possível ensinar a filosofar sem ensinar filosofia. Gallo & Kohan posicionam-se de forma dialética com relação ao problema: “(...) a própria prática da filosofia leva consigo o seu produto e não é possível fazer filosofia sem filosofar, nem filosofar sem fazer filosofia (...) porque a filosofia não é um sistema acabado nem o filosofar apenas a investigação dos princípios universais propostos pelos filósofos” (Gallo & Kohan, 2000, p. 184). Com o que concordamos. Não se trata de consumir as palavras dos filósofos como se consome uma fórmula matemática. Deve-se ler filosofia como se lê poesia, revivendo-a: ressuscitando-a, encarnando-a, emocionando-se com ela, reinventando-a.

Entendemos, então, que não é possível desunir filosofia de filosofar pois os dois são uma mesma coisa. O filosofar é uma disciplina no pensamento que ao ser operada vai produzindo filosofia e a filosofia é a própria matéria que gera o filosofar. São indissociáveis. A matéria filosofia separada do ato de filosofar é matéria morta, recheio de livro de estante. Para ser filosofia ela tem que ser reativada, reoperada, assim reaparecendo a cada vez. Como a malha tricotada que só aparece se houver o ato do tricotar. O leigo desavisado não vê o tricotar na malha e não saberia refazer seu caminho.

A tricoteira sabe cada passo dos pontos e ao ver o tricô pode ver o tricotar, pode, a partir do tricô, reativar o tricotar que vai produzir tricô e assim sucessivamente. O movimento da razão a que chamamos filosofar se dá por intermédio de conceitos filosóficos e estes só são criados e recriados por meio do filosofar. Não há como ficar com uma coisa e dispensar a outra já que não são duas coisas e sim uma só. Não há o dilema filosofia ou filosofar. Filosofia é filosofar e filosofar é filosofia.

Artigo completo em: https://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n64/22832.pdf

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Dilemas do ensino da filosofia


 § 3. Escrita e fala. Pragmática e heurística do ensino da filosofia - Olga Pombo

Resta apenas determinar o que é que, na fala, através da qual o ensino primordialmente se faz, há a mais do que na escrita.

Na escrita, o outro, o destinatário, pode ser uma invenção minha. Na fala, o outro é uma presença concreta, uma diferença radical. Na escrita, eu posso ainda argumentar sozinha, criar um universo de significação e manter-me rigorosamente sempre no seu interior. Dito de outro modo, a escrita pode ser monológica. Pelo contrário, na fala, o outro é uma presença irrecusável. Se lhe falo, é porque pragmaticamente o reconheço como diferente, é porque antecipadamente prevejo (e desejo) ser contraditado ou aprovado, porque admito que o meu mundo terá que se esforçar, que se abrir ao contágio, à diferença comunicativa. No entanto, apesar do reconhecimento dessa diferença radical, se lhe falo, é também porque reconheço a existência de uma comunidade de regras de discurso que ambos respeitamos. Se lhe proponho um discurso é porque lhe reconheço uma mesma exigência de verdade.

Não pretendemos que a fala seja "mais verdadeira" do que a escrita, que esteja "antes" da escrita, mais "próxima" presença plena ou da intimidade reflexiva, concepção que constitui aquilo que Derrida22 considera caracterizar a metafísica tradicional. Podemos até reconhecer com Derrida a precedência da escrita face à fala. O que pretendemos é que a fala está, não mais próxima de mim, mas mais próxima do outro, mais determinada pela sua diferença e, simultaneamente, mais vocacionada para o reconhecimento da racionalidade comunicativa que une aquele que fala – seja ele o professor (de filosofia) no espaço da aula - ao seu auditório - seja ele o dos alunos que se agitam nos lugares que aí (na aula de filosofia) lhes estão antecipadamente destinados.

Ensinar não seria então subjugar, como pretenderam Barthes23 ou Foucault24 (e com eles, toda a crítica vanguardista e desconstrutora da escola)25. Ensinar (filosofia) seria, pelo contrário, para lá da diferença, para lá de todas as assimetrias circunstanciais, reconhecer a identidade de um destino comum, uma mesma exigência de verdade.

Daí que talvez seja possível escapar ao dilacerante dilema a que nos referimos e ao qual o professor de filosofia parecia estar condenado: trair a filosofia, ou trair o auditório real dos seus alunos.

De que maneira? A partir do momento em que o professor de filosofia compreende (e assume) que ensinar filosofia não implica modelar o seu discurso pelas limitações de um auditório real, deixar-se vencer, aceitar antecipadamente a derrota, simplificar, distorcer, trair, abandonar a pureza do seu universo de significação em nome de exigências comunicativas, mas ser capaz de falar ao outro - seja ele o aluno que desperta para a filosofia - enfrentar a sua diferença, considerar as suas limitações presentes e, simultaneamente, considerá-las como não-impeditivas da sua condição profunda e essencial de futuro (e já possível) cidadão de um projecto de auditório racional universal ao qual a filosofia - desde a sua origem – tem procurado falar e do qual, ela mesma, é a principal instituinte.

Produção na íntegra, disponível em: https://hermeneuticas.paginas.ufsc.br/files/2018/10/2016-O-ensino-de-filosofia-na-filosofia-da-educa%C3%A7%C3%A3o.pdf



sábado, 7 de novembro de 2020

O cérebro numa cuba

 

Sobre: O cérebro numa cuba  

O cérebro numa cuba, é um experimento mental que pode ser a representação de uma ideia que foi sendo desenvolvida ao longo dos tempos, ou seja, cronologicamente seria a discussão sobre o real ou virtual, que iniciou em Platão até a contemporaneidade, segundo Ben Dupré (2007).

Essa problemática sobre realidade ou fantasia, teria iniciado por Platão quando da criação da obra Mito da Caverna, avançando para o dualismo mente-corpo1, discussão essa iniciada em Descartes e que continua com o mesmo filósofo no Cogito ergo sum; passando pela obra o Navio de Teseu2, que conta como um navio começou e terminou uma viagem, também outra estória por esse viés filosófico.

Nessa linha do tempo, e dando continuidade à discussão sobre realidade virtual, em 1690 é escrito O Véu da Percepção3, que trata de aparência e realidade, em Bertrand Russell.

Seguindo a trajetória proposta no texto da experiência do “cérebro numa cuba”, deparamo-nos com o texto de 1974: A máquina de experiências4 sobre o pensamento do filósofo norte-americano Robert Nozick, que trata também do tema sobre realidades virtuais, sendo que nesse caso o autor preocupa-se “[...]com a situação das pessoas antes de serem ligadas à máquina”.

Tal trajetória dessa discussão nos é apresentada mais recentemente em 1981 através da obra de Ben Dupré: 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer, na parte em que o autor discorre sobre “O cérebro numa cuba”.

Observamos também a relação existente entre o texto de Ben Dupré de 2007 com o trecho do episódio do seriado da Netflix: “San Junipero”, série britânica cuja produção é de 2016, assim dando contin~uidade “a experiência de sonho” estando acordado.

Segundo o autor da história de 1981, o filósofo norte-americano Hilary Putnam, em seu livro Reason, Truth, and History poderemos afirmar que nosso cérebro não se encontra em uma cuba sustentado por químicas contemporâneas, ao invés de estar dentro da caixa craniana como tem sido nos informado pela ciência?

Segundo Dupré (2007), essa história de Putnam (1981) que faz parte do livro acima referenciado, está relacionada com a obra de René Descartes Meditações sobre a filosofia primeira de 1641, quando o filósofo cria a figura do gênio maligno, que indicaria “[...]a falta e confiabilidade nos nossos sentidos e a confusão criada pelos sonhos.”, fato esse que até hoje lança um véu sobre a filosofia.

Sendo assim, ou seja, através da linha do tempo traçada no texto inferimos que essa problemática não é novidade; é uma discussão que tem sido imaginada ou fantasiada ao longo de décadas e que busca discutir o ceticismo, alavancado por Descartes.

Essas discussões ao longo do tempo sobre se é verdade ou não, se os homens estão ou não acordados, se a realidade é essa mesma em que vivemos leva-nos a discutir ceticismo e conhecimento, isto é, quando para o senso comum: cético seria aquele indivíduo que de tudo duvida;  para o ceticismo filosófico homens duvidam porque não tem como garantir o conhecimento herdado, e se esse conhecimento garantiria nossa existência!

Concluindo esse escrito buscamos responder a questão sobre se o experimento cérebro numa cuba, seria ou não uma renovação desenvolvida no episódio “San Junipero”, quando deduzimos que sim! Pois também segundo Russel (1912, p. 7): “[...]Existe no mundo algum conhecimento tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar?”.

Referências bibliográficas

Dupré, Ben. 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer; tradução Rosemarie Ziegelmaier. - 1. ed. - São Paulo: Planeta, 2015.

Russel, B. Os Problemas da Filosofia. Oxford University Press paperback, 1959. Reimpresso em 1971-2. Tradução Jaimir Conte. Florianopólis, setembro de 2005.