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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Dilemas do ensino da filosofia


 § 3. Escrita e fala. Pragmática e heurística do ensino da filosofia - Olga Pombo

Resta apenas determinar o que é que, na fala, através da qual o ensino primordialmente se faz, há a mais do que na escrita.

Na escrita, o outro, o destinatário, pode ser uma invenção minha. Na fala, o outro é uma presença concreta, uma diferença radical. Na escrita, eu posso ainda argumentar sozinha, criar um universo de significação e manter-me rigorosamente sempre no seu interior. Dito de outro modo, a escrita pode ser monológica. Pelo contrário, na fala, o outro é uma presença irrecusável. Se lhe falo, é porque pragmaticamente o reconheço como diferente, é porque antecipadamente prevejo (e desejo) ser contraditado ou aprovado, porque admito que o meu mundo terá que se esforçar, que se abrir ao contágio, à diferença comunicativa. No entanto, apesar do reconhecimento dessa diferença radical, se lhe falo, é também porque reconheço a existência de uma comunidade de regras de discurso que ambos respeitamos. Se lhe proponho um discurso é porque lhe reconheço uma mesma exigência de verdade.

Não pretendemos que a fala seja "mais verdadeira" do que a escrita, que esteja "antes" da escrita, mais "próxima" presença plena ou da intimidade reflexiva, concepção que constitui aquilo que Derrida22 considera caracterizar a metafísica tradicional. Podemos até reconhecer com Derrida a precedência da escrita face à fala. O que pretendemos é que a fala está, não mais próxima de mim, mas mais próxima do outro, mais determinada pela sua diferença e, simultaneamente, mais vocacionada para o reconhecimento da racionalidade comunicativa que une aquele que fala – seja ele o professor (de filosofia) no espaço da aula - ao seu auditório - seja ele o dos alunos que se agitam nos lugares que aí (na aula de filosofia) lhes estão antecipadamente destinados.

Ensinar não seria então subjugar, como pretenderam Barthes23 ou Foucault24 (e com eles, toda a crítica vanguardista e desconstrutora da escola)25. Ensinar (filosofia) seria, pelo contrário, para lá da diferença, para lá de todas as assimetrias circunstanciais, reconhecer a identidade de um destino comum, uma mesma exigência de verdade.

Daí que talvez seja possível escapar ao dilacerante dilema a que nos referimos e ao qual o professor de filosofia parecia estar condenado: trair a filosofia, ou trair o auditório real dos seus alunos.

De que maneira? A partir do momento em que o professor de filosofia compreende (e assume) que ensinar filosofia não implica modelar o seu discurso pelas limitações de um auditório real, deixar-se vencer, aceitar antecipadamente a derrota, simplificar, distorcer, trair, abandonar a pureza do seu universo de significação em nome de exigências comunicativas, mas ser capaz de falar ao outro - seja ele o aluno que desperta para a filosofia - enfrentar a sua diferença, considerar as suas limitações presentes e, simultaneamente, considerá-las como não-impeditivas da sua condição profunda e essencial de futuro (e já possível) cidadão de um projecto de auditório racional universal ao qual a filosofia - desde a sua origem – tem procurado falar e do qual, ela mesma, é a principal instituinte.

Produção na íntegra, disponível em: https://hermeneuticas.paginas.ufsc.br/files/2018/10/2016-O-ensino-de-filosofia-na-filosofia-da-educa%C3%A7%C3%A3o.pdf