O primeiro modelo ocidental de pensamento: A mitologia grega
1 Um esboço do mundo
O homem, em seu trágico destino, não pode fazer outra coisa senão gritar, não se lamentar nem se queixar, mas gritar a plenos pulmões aquilo que nunca foi dito, aquilo que antes talvez nem soubesse, e para nada: somente para dizê-lo a si mesmo, para ensinar-se a si mesmo.32
Com a linguagem cada vez mais estruturada, os homens vão construindo canais cada vez mais
complexos de comunicação e enunciação; o desenvolvimento da linguagem é também a ampliação do sistema cognitivo. Surgem os mitos, unidades de sentido complexas, que buscam, mais do que relatar, reter uma determinada parcela da realidade, fixá-la. Ao contrário de buscar explicar, como vai fazer a razão filosófica que virá depois, o mito, mais modesto, buscava apenas fazer com que se manifestassem estas forças com as quais se relacionava, como um modo de vê-las configuradas. Assim também fazia o homem primitivo, há 30 mil anos, desenhando nas paredes das cavernas a caça, a guerra, o sexo, fixava o mundo como uma forma de obter algum poder sobre ele. É este gesto, a pintura nas cavernas, que dará nascimento à linguagem escrita.
Mito pode ser qualquer história narrada, diz Bruno Sneel, mas o mito não se limita àquilo que narra, o que faz é esboçar uma imagem, um símbolo, para se referir a uma realidade muito mais complexa, impossível de ser explicada. Por isso, está sempre sujeito a múltiplas interpretações. É possível que mesmo os próprios poetas vissem a lenda como um meio de expressão que ajudava a entender o mistério da vida mais do que a revelação de como as coisas realmente são; mas o provável é que tenha surgido de um psiquismo que ainda não distinguia o que via do que imaginava ou intuía. O mito é um modo de significação, uma forma, um modelo interpretativo, uma maneira de ler o mundo. Vinculado à arte, o mito termina por ser capaz de acessar uma parcela contraditória, exuberante do pensamento humano, por isso se mantém vivo, mesmo depois do nascimento da razão ocidental.
As primeiras aparições do mito, segundo Cassirer, caracterizam-se pela criação dos deuses momentâneos, que não personificam forças da natureza nem características humanas, apenas manifestam forças que não chegam a se configurar como um mito propriamente dito e desaparecem tão rápido quanto surgiram. Os gregos chamavam estas forças momentâneas de Daimon, e mantiveram esta ideia mesmo depois de configurada sua complexa mitologia.34
Nestes deuses imediatos, o fenômeno é endeusado, sem que intervenha nenhum conceito genérico. Ainda restritos a determinados setores, "expressam mais um certo fazer do que um certo ser". Já os deuses pessoais, personificados, ganham autonomia, ganham carne e corpo, ganham nome e são capazes de agir, de se alegrar e de sofrer como uma criatura humana. Na medida em que o atuar próprio do homem se estende a uma esfera cada vez mais ampla, o mundo místico e linguístico atinge uma organização cada vez maior, uma articulação ainda mais definida.
A mitologia grega é um conjunto de estórias narradas, de relatos e lendas, surgidos na Grécia entre os séculos IX a.C. e III d.C., aproximadamente. São as maiores fontes da mitologia grega: de um lado, Homero (IX-VIII a.C.), possível autor de dois grandes poemas épicos, a Ilíada e a Odisseia, e Hesíodo, que escreveu a Teogonia, na qual relatava o nascimento dos deuses; de outro, as tragédias gregas, escritas principalmente por Ésquilo (525-456 a.C.), Sófocles (497-406 a.C.) e Eurípides (480-406 a.C.).
Mesmo com suas enormes diferenças e contradições, a mitologia grega manifesta uma certa concepção de mundo, o que mostra que já existia um discurso estruturado, ordenado, mesmo que povoado por deuses e monstros, muito antes do nascimento da filosofia. Werner Jaeguer,em sua Paideia, defendendo a tese de que existe uma conexão orgânica entre mitologia e filosofia, mostra como na mitologia já havia a necessidade de apresentar as causas e os motivos de uma ação; do mesmo modo, é ainda na Teogonia de Hesíodo que surge a ideia de uma cosmologia. A filosofia, sem deuses nem personalização dos elementos e por meio de um pensamento abstrato, busca uma explicação racional para a origem e a ordem do mundo, o
cosmos, mas este todo organizado já existia no mundo mítico dos deuses. O que antes eram deuses, demônios, heróis, passa mais tarde a ser uma explicação racional, fundada em uma causa suficiente. O pensamento mítico grego, com suas complexas intrigas, com suas guerras e olimpíadas, possibilitou aos homens a constituição de um espaço mental mais amplo. É neste espaço complexo que a filosofia nascerá.
"O poder artístico da natureza, não mais o de um homem, revela-se aqui: uma argila mais nobre é aqui modelada, um mármore mais precioso é aqui talhado: o homem."36
Notas
32 Albin Lesky, A tragédia grega, citando Jean Anouilh, p. 34.
33 Ernst Cassirer, Linguagem e mito.
34 Sócrates, no século V a.C., dizia ouvir a voz de um Daimon.
35 Werner Jaeguer, Paideia — a formação do homem grego.
36 Nietzsche, A visão dionisíaca do mundo.

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