domingo, 10 de janeiro de 2021

A neurociência da aprendizagem

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O Papel das experiências na aquisição de conhecimentos

Em sua obra A Construção da Mente, Alexander Romanovich Luria 1902 - 1977, discute o papel da experiência, que para ele deveria acontecer fora dos laboratórios e não entre paredes, porque almejava uma psicologia que focasse a vida real das pessoas.

Segundo Alexander Romanovich Luria, através de experiência com pessoas no seu cotidiano é o que poderia validar experimentos, pois seriam em experiências extra-laboratoriais, que o cientista “não poderia controlar ou avaliar”. (LURIA, 1992, p. 45).

Segundo Eagleman (2017), “Do ponto de vista neural” as experiências moldam nossas vidas desde nosso nascimento e por toda nossa vida adulta, porque nosso cérebro muda constantemente, para o pesquisador podemos ser resultado de nossa cultura, ou seja, dos lugares por onde estivemos.

Luria, na obra A Construção da Mente, já observava que “[…] a mente se origina na sociedade” (LURIA, 1992, p. 63).

Em vista das constantes mudanças pelas quais passa nosso cérebro, isso porque o cérebro reproduz os próprios circuitos neurais (neurônios interconectados por sinapses), em função disso nossa identidade é reescrita nunca atingindo um ponto final.

Para Eagleman (2017), embora seu caráter físico apresente uma estranha aparência – enrugada e gelatinosa - , o cérebro é responsável pela criação de processos mentais, é onde surgem nossas lembranças, sonhos, pensamentos e experiências.

Segundo Eagleman (2017), é pelo cérebro que acontecem incessantemente atividades durante toda nossa vida; ele também é moldado pelas nossas experiências cotidianas como: nossas conversas, o contato com nossos familiares, com amigos, no trabalho e em tantas outras atividades, dando-lhe assim uma plasticidade.

Plasticidade refere-se a que o cérebro pode reorganizar-se, tanto estruturalmente quanto funcionalmente, gerando novos neurônios localizados, novas sinapses, que podem ser fortalecidas pela repetição e prática ou que podem ser desbastadas quando não utilizadas, que são enfraquecidas pelo não uso: assim vai ocorrendo a reorganização cerebral. (CARMO, 2017, p. 11)

Para Reis et al. (2016), acontecerá a neuroplasticidade quando as experiências, informações forem repetidas, que podem resultar em sinapses mais consistentes.

Segundo Eagleman (2017), nascemos indefesos, somos dependentes daqueles que nos cercam, mas crescemos e nos desenvolvemos porque nosso cérebro nasce inacabado, diferente dos animais cujos cérebros já nascem pré-programados é um circuito rígido nas palavras do autor, assim devido ao inacabamento de nosso cérebro, esse vai sendo moldado pela “experiência cotidiana”: um circuito vivo.

Como procuramos discutir no parágrafo anterior, o cérebro humano chega ao mundo inacabado mas vai moldando-se porque os genes que carrega e pelas experiências por quais atravessa, orientam: “[…] os projetos das redes neurais e as experiências no mundo sintoniza os demais circuitos, permitindo que o cérebro se adapte às circunstâncias locais.” (EAGLEMAN, 2017, p. 9).

Nas crianças o cérebro em desenvolvimento precisa ser estimulado, isto é, precisa passar por experiências, que estimulam conexões e impulsos elétricos, assim, a aprendizagem nas crianças ocorre pela “entrada” desses estímulos por entre os intervalos dos neurônios.

Mas essa estratégia do cérebro, em moldar-se às circunstâncias locais tem seus riscos quando esta em desenvolvimento, ou quando uma criança não receba cuidados, podendo assim elas encontrarem dificuldades para se desenvolver, pois o cérebro humano para desenvolver-se necessita de “cuidados emocionais e estímulos cognitivos”. (EAGLEMAN, 2017, p. 12).

Para Reis et al. (2016) no III Curso de Atualização de Professores da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio, confirmam que: “[…] é verdadeiro que crianças pouco ou não estimuladas durante a infância podem apresentar dificuldade de aprendizagem”. 

Após esse período da infância, vem a adolescência quando há uma grande produção de novas células e sinapses, para assim continuar na modelagem do indivíduo, que também passa por desbastes, pois na adolescência prevalecem as conexões mais fortes, para a formação de circuitos que prepararão o indivíduo para a vida de adulto.

Vencidas a infância e adolescência, ainda o cérebro continua a mudar, mesmo na fase adulta passa por mudanças “em quem somos”, pois nossa experiência é única podendo: “[…] ser um tanto diferente de uma pessoa para outra  e de um cérebro para outro” (EAGLEMAN, 2017, p. 47). 

Para o autor da obra Cérebro – uma biografia: “[…] cérebros diferentes têm experiências subjetivas e particulares diferentes”, e aprendem por conta de cada experiência vivenciada, atribuindo valor de experiências passadas.

Sendo assim o cérebro foi moldado à aprendizagem que acontece no encéfalo, a partir das experiências, acontecendo em todas as espécies.

Para o desenvolvimento do cérebro também são necessários dois elementos químicos, quais sejam o serotonina e o cortisol. 

O cortisol que é o hormônio que participa da produção da serotonina, responsável entre outras coisas pelas funções intelectuais, é expelido pelas glândulas supra-renais, em consequência de longos períodos de estresse que o indivíduo experimenta.

Para o processo da aprendizagem, o cortisol quando promove estresse, prejudica ou afeta a memória, pois produz escassamente glicose no hipocampo, que tem como papel recombinar nossas lembranças passadas, para assim “montar um futuro imaginário”, levando o cérebro a não registrar uma memória, pela falta de energia nessa área importante para a memória.

O Papel das experiências na produção de novas sinapses

As sinapses

O termo sinapse refere-se à conexão entre neurônios, que é o elemento funcional do sistema nervoso central, responsável pela transmissão de informações de um neurônio ao outro, através de processos químicos, liberando os chamados neurotransmissores.

Luria já havia observado que os neurônios não agiam isolados, mas que esses seriam conectados uns aos outros, e que a excitação entre esses alastram-se gradualmente, assim “[…] modulando o estado funcional de todo o sistema nervoso.” (LURIA, 1992, p. 163) 

Para Carmo (2017)2, o neurotransmissor serotonina é quem constrói as transmissões elétricas para através dos neurônios estabelecer as sinapses, ainda para o professor Juliano do Carmo esse neurotransmissor é produzido “quando a criança se sente amada, cuidada e feliz”.

Lembra ainda o pesquisador que a produção de serotonina pode ser inibida, quando o indivíduo passa por longos períodos de estresse, assim, o hormônio cortisol, responsável pela produção de serotonina, pode não produzir esse hormônio neurotransmissor.

Importa salientar segundo o professor pesquisador Juliano Santos do Carmo, quando da palestra Neurociência e Aprendizagem, que a conexão entre neurônios quando passa por períodos extensos de estresse, pode impedir as sinapses necessárias à aprendizagem.

Visto as relações entre esses neurotransmissores (substâncias químicas): o serotonina e o cortisol, podemos perceber suas influências também na aprendizagem.

Mas essas conexões podem ser mais fortes ou mais fracas, sendo que, a potência dessas conexões é quem determinaram a forma como as informações fluirão, e ainda se essa potência for fraca “uma conexão murcha e desaparece”. (EAGLEMAN, 2017, p. 63)

Ao contrário sinapses sendo fortalecidas, podem originar novas conexões para transmitir a dopamina, neurotransmissor que faz parte de sistemas de recompensa, “que age como um corretor de erros”, sendo que segundo Carmo (2017): “[…] recompensa pode influenciar positivamente nos índices de aprendizagem...”, dessa forma podem acontecer novas conexões fortes ou fracas.

É através de jogos populares, que as recompensas incertas aumentam os níveis de dopamina, isso devido as incertezas que as competições geram, até que os resultados sejam conhecidos.  Jogos competitivos podem colaborar na aprendizagem, pois geralmente a recompensa: 

(1) é egocêntrica tanto em relação à derrota de nossos con correntes quanto em relação a nossa própria vitória; (2) é geralmente aumentada na presença de pares; (3) é aumentada com o tamanho/proporção da recompensa. (CARMO, 2017, p. 44)

Através das referências estudadas, podemos deduzir que a experiência para a aprendizagem é essencial, visto que em função delas o cérebro desenvolve-se desde o nascimento dos seres humanos até sua fase adulta, que somente cessará quando da morte do corpo humano.

    ​ Referências

CARMO, Juliano Santos do. CICLO DE PALESTRAS: QUALIDADE NA VIDA ACADÊMICA. NEUROCIÊNCIA NA APRENDIZAGEM. Apresentação em PowerPoint. UFPEL. 2017

CASTRO, Fabiano S., LANDEIRA-FERNANEZ, J. Alma, Corpo e a Antiga Civilização Grega: As Primeiras Observações do Funcionamento Cerebral e das Atividades Mentais. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-79722011000400021&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em 8 Jun. 2020.

EAGLEMAN, David. Cérebro uma biografia. - São Paulo : Rocco, 2017.

LURIA, Alexander Romanovich. A Construção da Mente. Traduzido por Marcelo Brandão Cipolla. - São Paulo: ícone, 1992.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Manual de normas UFPEL para trabalho acadêmicos.  Revisão técnica de Aline Herbstrith Batista, Dafne Silva de Freitas e Patrícia de Borba Pereira - Pelotas : Editora da UFPEL, 2019. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/sisbi/normas-da-ufpel-para-trabalhos-academicos/. Acesso em 10 Jun. 2020.

REIS et al. A Neurociência e a Educação: Como nosso cérebro aprende?UFOP. Ouro Preto – MG : 2016. 

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