O Erro de descartes (Excertos)
EMOÇÃO RAZÃO E O CÉREBRO HUMANO
Antônio R. Damázio
Retorno ao erro de Descartes
Se tivéssemos vivido por volta de 1900 e sentíssemos algum tipo de interesse por assuntos intelectuais, provavelmente acharíamos que chegara a hora de a ciência dedicar-se a compreender a emoção em suas muitas dimensões e satisfazer definitivamente a crescente curiosidade do público a respeito do tema. Nas décadas precedentes, Charles Darwin demonstrara que certos problemas emocionais estão presentes, de modos notavelmente comparáveis, em espécies não humanas. William James e Carl Lange haviam apresentado uma proposta inovadora para explicar como as emoções são desencadeadas. Sigmund Freud fizera das emoções a peça central de sua investigação dos estados psicopatológicos. E Charles Sherrington dera início ao estudo neurofisiológico dos circuitos cerebrais envolvidos na emoção. Com tudo isso, porém, o ataque geral ao estudo da emoção, naquele momento, não aconteceu. Ao contrário, à medida que as ciências da mente e cérebro desabrocharam no século XX, seus interesses voltaram-se para outros temas, e as especialidades que hoje agrupamos imprecisamente no rótulo “neurociência” mostraram total descaso pelo estudo da emoção. É bem verdade que ela nunca foi esquecida pelos psicanalistas, e que houve nobres exceções: farmacologistas e psiquiatras ocupados com distúrbios do humor, psicólogos e neurocientistas que, isoladamente, procuraram analisar o afeto. Essas exceções, no entanto, meramente ressaltaram a desatenção pela emoção como objeto de estudo. O behaviorismo, a revolução cognitiva e a neurociência computacional não reduziram essa desatenção em grau apreciável.
"O principal enfoque em O erro de Descartes é a relação entre emoção e razão. Baseado em meu estudo de pacientes neurológicos que apresentavam deficiências na tomada de decisão e distúrbios da emoção, construí a hipótese (conhecida como hipótese do marcador somático) de que a emoção era parte integrante do processo de raciocínio e poderia auxiliar esse processo ao invés de, como se costumava supor, necessariamente perturbá-lo."
"Seria também possível classificar Luria como um psicólogo fisiologista, devido ao seu contínuo interesse pelas bases cerebrais do comportamento, mas, para ele, o estudo do cérebro, isoladamente nunca revelaria como o comportamento é organizado. Luria sempre teve em mente que as propriedades do sistema integral não poderiam ser obtidas de maneira confiável a partir de um estudo da operação isolada de suas partes. O cérebro fazia parte de um sistema biológico maior, e mais, de um sistema ambiental circundante, no qual a organização social era uma força importantíssima. Conseqüentemente, uma teoria psicológica do organismo intacto, que preservasse, no estudo, sua história de interações com o meio e suas tarefas, era um complemento necessário da investigação fisiológica ou anatômica pura."
"Eu queria uma psicologia que se aplicasse às pessoas de fato, na sua vida real, e não uma abstração intelectual num laboratório. A psicologia acadêmica era para mim terrivelmente desinteressante, porque não via qualquer ligação entre a pesquisa e o lado de fora do laboratório. Queria uma psicologia relevante, que conferisse alguma Substância a nossas discussões sobre a construção de uma nova vida."
https://www.skoob.com.br/livro/pdf/a-construcao-da-mente/livro:704152/edicao:705257


