Melhor calar, pois a burrice não é de hoje
"Um pensador como Kant, cujo senso de humor poucos percebem, escreveu em seu Ensaio sobre as Doenças Mentais que a burrice é uma doença. Ao burro, diferente do ingênuo ou do louco, falta entendimento. Aquela capacidade de pensamento que nos permite conversar com os outros e entender o que dizem e até mesmo o que lhes dizemos. Quantos falam sem pensar? Nietzsche, por sua vez, falou da estupidez de um jeito mais simples: uso de viseiras, ou “estreitamento da perspectiva”. Mas somente com Bouvard e Pecuchét, de Flaubert (publicado no Brasil pela editora Estação Liberdade), é que a crítica à burrice atinge seu ápice ao tocar no caso sempre notável da burrice dos inteligentes e da inteligência dos burros. Ou dos que, querendo ser inteligentes, são sempre os mais abestalhados. O erro dos dois amigos trapalhões criados por Flaubert era a crença de que a informação e a experimentação seriam suficientes para o sucesso da ciência. Ao final de Bouverd e Pécuchet, o famoso Dicionário das Ideias Prontas, um fichário de preconceitos de pensamento, é a prova linguística e histórica da acomodação mental que se expressa em palavras e da incapacidade de compreender que está em sua base."
A burrice como categoria moral
Na história a burrice aparece como uma categoria do pensamento marcada justamente pela ausência de raciocínio. Theodor Adorno percebeu que ela é uma categoria moral. Adorno compara a burrice a uma paralisia. Se o corpo é paralisado por um ferimento físico, o espírito o é pelo medo. A burrice, diz ele, é uma cicatriz que surge de uma inibição e que se transforma em repetição. É uma deformação relativa à capacidade de pensar, de criar – quem repete pode nunca inventar nada –, mas também de agir daquele que teve experiências tão negativas a ponto de se tornar burro. Não é burro apenas quem pensa errado, mas quem pensa com inibição. Quem age de modo inibitório também. O medo seria o seu moto inevitável.
Marcia Tiburi