quarta-feira, 7 de abril de 2021

O ensino de Filosofia por meio da experiência filosófica

         Ensinar Filosofia apenas pela história da filosofia ou simplesmente pelas discussões de temas relevantes e opiniões dos alunos tem evidenciado não ser a maneira mais adequada, pois cada uma dessas abordagens metodológicas quando utilizada de forma unilateral pode apresentar problemas para o ensino dessa disciplina.

Diante dos desafios para se ensinar Filosofia, surge uma terceira abordagem que tem como mote acabar com as polarizações ao propor uma síntese de ideias a partir desses dois eixos anteriormente apresentados, propondo tanto o acesso à história da filosofia quanto aos temas relevantes que serão tratados como problemas filosóficos. E, nesse sentido, é uma abordagem mais avançada, já que toma a Filosofia como uma atividade, uma experiência, uma ação do pensamento, que se organiza em torno dos problemas que motivam e estimulam o filosofar.

Não basta ensinar Filosofia de forma apenas histórica ou temática. É preciso buscar um ensino de Filosofia que agregue o histórico e o problemático ou o problemático e o histórico.

A terceira abordagem metodológica para o ensino de Filosofia ao propor uma síntese entre o eixo histórico e o temático, evidencia que é preciso uma didática que trabalhe com uma história dos problemas. Sob essa perspectiva, os conteúdos deverão ser organizados em torno dos problemas tratados pela filosofia, os quais se recortam em temas a serem abordados historicamente.

Considera-se que não existe filosofar sem problematização do mundo, da vida, da realidade, dos valores, das opiniões, do saber. Problematização no sentido de: realizar a suspensão do juízo em relação a situações, crenças, preconceitos, acontecimentos dados como certos, como verdades absolutas; duvidar, de querer mais explicações e de buscar novas soluções para as situações, realidades.

Sob essa ótica, os problemas deverão tornar-se problemas filosóficos e os alunos deverão compreender que nem todos os problemas são filosóficos. E o que seria um problema filosófico? Seria aquele que deixa confuso, perdido, incomodado, que envolve e que faz sentir necessidade de orientação para tentar resolvê-lo. Rocha (2000) assevera que o professor de Filosofia deve ter muito claro que 

[...] os problemas filosóficos se apresentam nas mais variadas formas e situações. Eles se apresentam sempre que temos de reavaliar nossos critérios, nossos conceitos e limites mais fundamentais. Filmes, poemas, romances, as situações do cotidiano, textos, ... podem conter e apresentar problemas e situações filosóficas. (ROCHA, 2000, p. 172-173)

Entretanto, como ressalta Saviani (2007), nem todas as questões, dúvidas e perguntas são problemáticas, pois o que determina o problema é a necessidade.

Registrando que uma questão, em si, ainda que não tenha resposta conhecida, não determina o problema. Porém, uma questão cuja resposta é desconhecida e há a necessidade de conhecer, faz com que surja, de fato, um problema. Aquilo que ainda não sei não é necessariamente um problema; "[...] mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema.” (SAVIANI, 2007, p. 17)

Sílvio Gallo (2012) propõe a possibilidade de se ensinar filosofia caracterizando-a como atividade de criação de conceitos. Com base na leitura de textos filosóficos e na identificação de conceitos, busca-se conhecer o problema que levou o filósofo a produzir tal conceito. Deve-se partir de uma problemática filosófica para se chegar aos conceitos, ao processo de conceituação, ou seja, a uma experimentação do pensamento conceitual (GALLO, 2012, p. 85). Nesse sentido, pode se dizer que conceitos como verdade, liberdade, ilusão, vontade, dentre outros, devem ser experimentados pelo pensamento.

Pela abordagem problemática dos temas, a qual concebe o ensino de Filosofia por meio da experiência filosófica, o estudante deve ser capaz de identificar, avaliar e construir argumentos, inserindo-os em seu contexto filosófico e confrontando-os com os argumentos de outros filósofos sobre o mesmo problema.

Os problemas propostos devem ser vividos pelos estudantes como problemas seus e devem mobilizá-los a fazer o movimento do pensamento (o filosofar). Para isso, o docente precisa seguir algumas etapas para o ensino de Filosofia por essa terceira abordagem (ASPIS; GALLO, 2009).

A primeira etapa é a da sensibilização dos estudantes para o tema que será tratado na aula. O professor deve despertar o interesse dos alunos através da aproximação dos temas relevantes com o cotidiano, com as realidades dos mesmos. Aproximando, dessa forma, a filosofia de suas vidas e despertando neles o envolvimento com o tema que será investigado. A sensibilização pode ter como ponto de partida uma música, um vídeo, o trecho de um filme, uma poesia, ou qualquer outro recurso que possa causar interesse e envolvimento por parte dos alunos. Após a sensibilização, vem a etapa da problematização que trata de transformar o tema em problema filosófico.

O professor de Filosofia deve colocar em prática o sentido crítico e investigativo da filosofia, assumindo o papel de um questionador que faz perguntas e ensina seus alunos a perguntar, estimulando-os a formularem perguntas a partir do tema abordado, às quais levarão à elaboração do problema filosófico que será objeto de estudo e discussão nas aulas (ASPIS; GALLO, 2009, p. 75-80).

Nessa etapa que o professor deve convidar seu alunos a realizar a epoché (fazer a suspensão dos juízos), distanciando-se de suas crenças, preconceitos, etc. Assumindo a partir de então, a atitude filosófica de duvidar de situações dadas como indiscutíveis, incontestáveis, naturais, para que possa pensar sobre o tema e formular perguntas mais consistentes mediados pelo professor. Nesse momento, estar-se-á e iniciando o caminho de distanciamento do senso comum rumo a conhecimento filosófico.

Desenvolver nos alunos a atitude filosófica, é criar condições para a reflexão diante de si mesmos e da realidade que os circunda e os desafia, procurando superar os problemas ou ao menos encará-los sob outras perspectivas. Para Gramsci (1986), além de estabelecer a crítica do senso comum, a filosofia busca superá-lo. Assevera que a “[…] filosofia é uma ordem intelectual, o que nem a religião nem o senso comum podem ser” (GRAMSCI, 1986, p. 14). Saviani (1996, p. 24) alerta que a reflexão filosófica não é uma reflexão qualquer, pois deve ser radical, rigorosa e de conjunto. Radical significa chegar até as raízes, os fundamentos dos problemas, analisando-o com profundidade; rigorosa no sentido de que se deve proceder com rigor para garantir a exigência da radicalidade e por exigir sistematização e procedimentos metodológicos bem estabelecidos; e de conjunto implica que o problema não pode ser analisado de modo parcial, mas numa perspectiva de totalidade, de conjunto, relacionando-o aos demais aspectos do contexto que o determinam. (SAVIANI, 1996)

Depois da problematização, vem a etapa da investigação, na qual os fundamentos da história da filosofia são a base firme para a investigação do problema, não abrindo mão de ensinar aos alunos a ler e a estudar os textos da tradição filosófica (ASPIS; GALLO, 2009, p. 85). Esse momento requer que os alunos já estejam bastante envolvidos e instigados para pensar em respostas e/ou soluções para as perguntas e, consequentemente, para o problema filosófico.

Durante a investigação, a história da filosofia e os pensamentos dos filósofos, tomados como luzes para melhor compreensão do tema, do problema e das próprias perguntas que foram levantadas, ganham sentidos e significados especiais, não sendo apenas mais um conteúdo a ser decorado pelos estudantes, pois as diferentes filosofias podem ser consideradas como diferentes óculos que mostram diferentes facetas da realidade e do mundo.

Há na filosofia uma coexistência de problemas e soluções nas diferentes épocas históricas. Nesse sentido, os alunos deverão compreender que a história da filosofia é uma caixa de ferramentas que podem utilizar para enfrentar seus próprios problemas ou problemas do cotidiano social, pois o já pensando pelos filósofos serve como material fértil para nossos pensamentos.

A quarta etapa é a da conceituação, na qual os alunos são colocados em contato com os conceitos já existentes para analisá-los, interpretá-los, procurando encontrar respostas para o problema filosófico. Nessa etapa, os conceitos já existentes poderão ser ressignificados de modo que possam equacionar o problema ou mesmo novos conceitos que melhor respondam ao problema, poderão ser criados pelos estudantes. É nessa etapa que deve ocorrer o exercício da experiência filosófica propriamente dita.

Pela exposição das etapas, percebe-se que quando as aulas de Filosofia são organizadas pelo professor como “oficina de conceitos”, a qual prevê os momentos de sensibilização, problematização, investigação e conceituação, a abordagem problemática dos temas (que concebe o ensino de Filosofia por meio da experiência filosófica) estará sendo contemplada.

Esses quatro momentos que foram mencionados de forma sucinta, certamente não dão conta de todos os desafios enfrentados pelo professor ao formular estratégias para uma boa aula de Filosofia nem de todos os desafios suscitados em cada aula. No entanto, são promissores caminhos que os professores de Filosofia podem e devem percorrer. Ainda que alguns alunos no início ou mesmo depois de algum tempo participando da “oficina de conceitos”, não reformulem ou não desenvolvam novos conceitos de forma criativa, genial, o importante é que já terão vivenciado a experiência do movimento do pensamento (o filosofar).

Conduzir os estudantes a aprender a pensar, a vivenciar a experiência do pensamento no trabalho com os conceitos, é colocá-los a estabelecer e a enfrentar problemas, construindo possibilidades de superação dos mesmos. Pois, o incômodo, a insatisfação com a realidade individual e social e em relação às situações dominantes são excelentes motores para a vontade de filosofar.

Segundo Gallo (2008, p. 75), colocar o foco do processo educativo no aprendizado (no aprender a pensar e não no ensinar a pensar cujo foco é o ensino como treinamento) é “[...] trabalhar a educação como experiência, como experimentação”. Cada aluno precisa experimentar o movimento do pensamento, entrando no campo problemático e experimentando “[...] o pensar por conceitos.” Desse modo, aprender a filosofar é ainda, necessariamente, adentrar “[...] singularmente num campo problemático, experimentar os problemas, mobilizar-se em torno deles, experimentar conceitos, fabricar conceitos para fazer frente a tais problemas” (GALLO, 2008, p. 75).

Desde o tema inicial, os estudantes devem ser mediados pelo professor no sentido de reformularem os conceitos estudados, devendo ser estimulados a criar argumentações filosóficas e novos conceitos que ofereçam outras maneiras para responder e/ou resolver o problema que será tratado como um problema filosófico. Criar conceitos sobre os problemas, as situações ou acontecimentos é uma experiência do pensamento.

Faz-se necessário esclarecer que a escolha dos temas relevantes que serão tratados nas aulas de Filosofia pela abordagem problemática dos temas, não será feita somente levando-se em consideração as inquietações e os interesses dos alunos pelos mesmos.

Pois, o professor, também, deverá eleger temas ou conceitos relevantes como: loucura, razão, justiça, liberdade, vontade, moral, ética, quantidade, qualidade, dentre muitos outros, que deverão ser eleitos com base nos conteúdos específicos de filosofia. Sendo a história da filosofia referência imprescindível para tal escolha, já que conta com uma variedade de temas e problemas apresentados e estudados pelos pensadores, os quais podem contribuir para a boa formação integral dos estudantes, caso esses não sejam levantados pelos mesmos.

Depois de percorridas essas etapas da “oficina de filosofia”, o professor deve introduzi-los na escrita filosófica que alcança seu auge nas tentativas dos estudantes construírem seus próprios textos filosóficos para responder ao problema suscitado no início de todo o processo. (Idem, 2008)

Trabalhar com a “oficina de conceitos”, proposta por Sílvio Gallo, requer deslocar o foco do ensino como treinamento para uma educação como experiência, em que cada estudante seja convidado a colocar seus problemas, adentrar no campo problemático e experimentar os conceitos, experimentar o pensamento por conceitos, seja manejando e deslocando conceitos criados por filósofos ao longo da história do pensamento, seja criando seus próprios conceitos. (GALLO, 2008, p.75)

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