A chamada sociedade de controle é um passo à frente da sociedade disciplinar. Não que esta tenha deixado de existir, mas foi expandida para o campo social de produção. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.
- A forma cíclica e o recomeço contínuo das sociedades disciplinares modernas dão lugar à modulação das sociedades de controle contemporâneas nas quais nunca se termina nada mas exige-se do homem uma formação permanente.
- Se as sociedades disciplinares tinham a arquitetura do panóptico, as sociedades de controle apontam uma espécie de anti-arquitectura. A ausência da casa, do prédio, do edifício é fruto de um processo em que se caminha para um mundo virtual.
- É importante perceber que na sociedade de controle, o aspecto disciplinar não desaparece, apenas muda a atuação das instituições. Os dispositivos de poder que ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições passam a adquirir total fluidez, o que lhes permite atuar em todas as esferas sociais. Entre os princípios norteadores desta dinâmica, destaca-se a abolição do confinamento enquanto técnica principal.
- Há uma vigilância contínua, concretizada pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte: no comércio, bancos, escolas e até mesmo nas ruas. Isto traz a dimensão da sociedade auto-vigiada, idealizada por Jeremy Bentham, cujo panóptico expressa a sua concepção arquitetônica. Uma vigilância intensificada pela disseminação de dispositivos tecnológicos de vigilância presentes até mesmo ao “ar livre”. Todos podem e querem espiar todos. Trata-se da reinvenção do Panóptico benthaniano que passa a atuar com o objetivo de transformar, de maneira extensiva e intensiva, os modos de viver, pensar e agir dos indivíduos.
CORPOS CONTROLADOS
- O controle, na sociedade contemporânea, é exercido de modo “glamourizado” pela indústria cultural. Assim substituiu-se a guilhotina e a violência física por técnicas de controle social formadas dentro das ciências humanas e sociais, pela psicologia, psiquiatria e mais recentemente pelos meios de comunicação de massas.
- Em vez de usar a força física para fazer os corpos indóceis padecerem em razão de não se ajustarem, o que ocorre é tornar interna, ideologia exercida pelos meios de comunicação de massa, que produzem uma certa forma de ser, de viver, de pensar e de sentir.
- A estratégia atual é construir subjetividades, de forma a que estas se enquadrem no modo de vida oferecido pela sociedade, pois de acordo com Foucault, o poder moderno exerce-se na produção e na repressão.
VIGILÂNCIA E FAMA
- Hoje, os vigias do “Grande Irmão”, são todos os indivíduos, que auxiliados pela edição dos media ficam extasiados, fascinados diante da televisão, vigiando e controlando através dos votos (pois é um programa interativo), os passos dos doze participantes anônimos. O que, antes era temido – o controle e o vigiar – e também o que era protegido – a privacidade e a intimidade – tornam-se objetos de fascínio. Isto evidencia-se no primeiro imperativo para participar do show de realidade – Big Brother - que é a imposição da restrição do privado.
- Oferece-se aos participantes uma casa bem equipada em que se encontram 24 sobre 24 horas sob vigia, para que se tornem famosos, todavia, caso sejam excluídos e não ganhem o prémio máximo de cem mil euros, já tiveram a oportunidade de conquistar a fama. Troca-se desta maneira, a privacidade pela fama.
- O olho que vigia e pune, é o mesmo que possibilita a fama.
SOCIEDADE DE CONTROLE E O EMPREENDEDORISMO DE SI
- Se a Disciplina marcava o tempo pelo relógio, o Controle percebe que o tempo cronológico é, na verdade, pouco produtivo. É mais inteligente pensar qual o melhor momento. Em que momento pode-se extrair mais de cada tipo de corpo? Para cada corpo, uma medida. A captura do tempo se dará no campo da heterogênese. “Você rende mais à noite? Fique à vontade para fazer seu horário“. A produção não se dá mais em turnos, ela acontece o tempo inteiro.
- É preciso falar também da mudança na produção de subjetividade. O Normal é produzido em espaço aberto. Não há mais passagem entre a escola, a faculdade e o trabalho. Há uma espécie de Conurbação Afetiva, bem monótona. O Controle atravessa as paredes pelas ondas eletromagnéticas para fazer circular um número ínfimo de afetos. Deleuze fala que o plano da vez é a educação nacional, e isto significa precisamente, a entrega da escola à empresa. Nossas escolas devem produzir bons “Empreendedores de Si”.
CAPTURAS DE SUBJETIVIDADES
A ideia de Modulação se faz necessária para entender o conceito de controle. A captura das das multiplicidades se faz através de uma Modulação dos Fluxos, tudo é muito mais moldável e flexível. Como uma peneira que tem sua trama modificada de acordo o indivíduo, com o momento, com a cor da pele, com o gênero, com a orientação sexual... Para cada um, os fluxos devem passar, de uma maneira diferente. Tudo diferente para que fique exatamente igual, assim se controla muito melhor. O que aceitar de cada subjetividade é mais interessante do que encaixá-las em modelos. É assim que se produzem figuras como a do negro dominado pela branquitude, da mulher a serviço da empresa, do homossexual com poder de consumo.. Somos todos iguais e celebramos nossa diferença, contanto que o diferente aja dentro do que é lhe é esperado.
O QUE ESTÁ EM JOGO NA SOCIEDADE DE CONTROLE?
- À serviço do Capital, o Controle nutre-se da alteridade. É possível ser mais claro? A submissão de qualquer diferença a um rosto interessa a partir do momento em que qualquer pessoa é um potencial consumidor! Não interessa mais excluir, mas o interesse pela inclusão se dá apenas pelo Consumo. O Controle, melhor que a Disciplina, tem a capacidade de orquestrar a diferença prendendo-a em um circuito de lucro.
- Imensas novas forças estão implicadas na Sociedade de Controle: as bolsas de valores, os bancos, as empresas, a mídia, a publicidade. O processo de captura do Desejo não é simples. O Controle move enormes quantidades de força reacionária: uma Axiomática. Primeiro, é preciso que as pessoas acreditem que as demandas sociais são verdades inquestionáveis, que o país só cresce quando os bancos lucram, que o produto melhor é o mais novo, que o metrô é o melhor uso do dinheiro público. Segundo, é preciso capturar as palavras perigosas. Experiência, conceito, ação, invenção. Só através da captura das máquinas de expressão é que se captura da multiplicidade em espaço aberto. É por esse motivo que as instituições da grande Mídia tem tanto poder. Ao disputar a narrativa, elas disputam a produção de pensamento.

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