Segundo pesquisa realizada com colegas na escola onde trabalhamos e que cursaram Magistério - EM, somente uma colega manifestou-se quanto a oferta da disciplina Filosofia na Educação no curso de formação de professores que participou.
Em nossas leituras encontramos que a função da filosofia da educação:
Será acompanhar reflexiva e criticamente a atividade educacional de modo a explicitar os seus fundamentos, esclarecer a tarefa e a contribuição das diver sas disciplinas pedagógicas e avaliar o significado das soluções escolhidas. Com isso, a ação pedagógica resultará mais coerente, mais lúcida, mais justa; mais humana, enfim. (SAVIANI, 1973, p. 12)
Diante dessa problemática, propomos uma discussão sobre filosofia como um estudo introdutório à ética Kantiana, visto a relevância do tema à educação escolar e na formação de professores, mas frisando que esse estudo ainda necessitaria de um aprofundamento teórico.
Sendo assim organizamos um plano de aulas através de apresentações em slides sobre o tema Ética em Immanuel Kant, que também será parte de um vídeo como forma de uma transposição didática, pois:
Um conteúdo de saber que tenha sido definido como saber a ensinar, sofre, a partir de então, um conjunto de transformações adaptativas que irão torná-lo apto a ocupar um lugar entre os objetos de ensino. O ‘trabalho’ que faz de um objeto de saber a ensinar, um objeto de ensino, é chamado de transpo sição didática.” (Chevallard, 1991, p.39)1
Para esse trabalho orientamo-nos segundo os itens a seguir, relativos ao conteúdo da quarta aula desse Curso de Especialização: Ética – Dilemas morais, quando discutimos esse tema em Immanuel Kant (1725):
Ética deontológica ou ética do dever
A ética deontológica considera a priori o modo de pensar e só depois o conceito de bondade e suas consequências, não visa a utilização prática das ações humanas, mas sim que essas devem ser praticadas somente e exclusivamente pelo dever em si.
O dever é o princípio supremo de toda a moralidade1.
Nesse sistema a ética “[...] possui um fim em si mesma.”2, isto é, à valoração de uma ação é inerente a problemática proposta, trata-se de um dever chegarmos ao fim do ato seja ele certo ou errado; contraria a ética utilitarista que “visa o resultado da ação”.
Exemplos:
“Visito meus familiares no hospital pois é meu dever” (ética deontológica). “Além disso, posso precisar deles algum dia, quando estiver enfermo”.(ética utilitarista).
Praticar o assistencialismo por sentimentalismo cristão não seria uma ação moral, mas se praticar essa ação por dever, para Kant estarei agindo moralmente.
Para Chauí (2000, p. 444): [...]”O dever, não se apresenta através de um conjunto de conteúdos fixos... O dever não é um catálogo de virtudes nem uma lista de “faça isto” e “não faça aquilo”.
Imperativo categórico1:
Para Kant, imperativo categórico seriam ações necessárias por si mesma somente pela razão, sem relação com nenhum outro propósito, e que devem: “[...]o interesse pela própria ação e seu princípio racional (a Lei).” O filósofo não relativiza o dever, isto é, o que é certo é certo: independentemente das circunstâncias!
Para Chauí (2000, p.444): “O dever é uma forma que deve valer para toda e qualquer ação moral” assim, por exemplo: “Não matarás, não roubarás...”
“Procede como se a máxima de tua ação devesse ser erigida, por tua vontade, em LEI UNIVERSAL DA NATUREZA.”(KANT, 1785, p. 23). Exemplificando:”[…] mentir constitui-se uma ação contrária ao dever, porque a máxima que determina a vontade nesse caso não pode ser elevada a lei prática universal.”.(SOUZA, 2009, p.52)
Para Kant o sujeito deve portar-se de maneira que sua “máxima2” possa tornar-se em uma lei universal.
Para Leite & Ribeiro (2020) no Imperativo categórico: […] “Prevalece o dever”, e a lei universal3 é uma escolha voluntária e racional.
Princípios da razão prática1:
A razão é a condição a priori da vontade, por isso independe da experiência. “Nega impulsos e desejos para alcançar o bom estado da existência humana.”
Por exemplo, se a vida for conservada apenas por egoísmo, para Kant não existe moralidade nessa ação, mas existirá se o vivido for conforme o dever, isto é, “vive” porque a vida merece ser vivida, também encontramos em Souza (2009, p. 12): “[…] Quando a vida humana é conservada por puro respeito à vida, pode-se dizer que o princípio determinante da vontade é o estrito dever e, portanto, a ação tem conteúdo moral.”
Princípio do dever a priori2:
Referimo-nos sobre o termo a priori, quando um princípio é anterior a experiência, então:”[...] Em Kant, são a priori, quer dizer, universais e necessárias, as formas ou intuições puras da sensibilidade (espaço e tempo), as categorias do entendimento e as ideias da razão.”(JAPIASSU & MARCONDES, 2001, p.16)
Valor moral
O valor moral independe da intenção, como por exemplo se o sujeito: “conserva a vida sem a amar”, mas como sendo um dever, para Kant (1781, p.7)sua existência contém valor moral.
Um outro exemplo de valor moral, seria o do filantropo que executa sua ação não por afeto ou por caridade mas sim por dever:
Com efeito, o amor, como inclinação, não pode ser comandado; mas praticar o bem por dever, quando nenhuma inclinação a isso nos incita, ou quando -- uma aversão natural e invencível se opõe, eis um amor prático e não patológico, que reside na vontade, e não na tendência da sensibilidade, nos princípios da ação, e não numa compaixão emoliente. (KANT, 1785, p.8)
Como transposição didática de nosso trabalho para esse Curso de Especialização para o Ensino de Filosofia, produzimos uma videoaula através de uma apresentação de slides, pois segundo os PCN – Ensino Médio, (2000): “[…] é interessante lembrar do uso de recursos de comunicação como vídeos e infográficos e todo o mundo da multimídia;”.
Através da vídeo aula citada no parágrafo anterior, justificamos seu uso como instrumento à transposição didática quando transpomos textos acadêmicos sobre a moral kantiana para uma linguagem que seja acessível aos alunos do curso de magistério, aos quais propomos discussão sobre alguns conceitos sobre a ética kantiana.
Também é importante salientar que o uso de novas tecnologias na educação (TICs), além de vídeos mas outros objetos de aprendizagem, também podem ser parte integrante a servirem como instrumento na transposição didática, além da transformação dos conteúdos escolares em exercícios e problemas contextualizados e de forma interdisciplinar.
Trazemos como exemplo a transposição didática para uma aula de biologia sobre a construção de um modelo para o DNA1, através da imagem a seguir:
Na imagem abaixo trazemos um exemplo sobre transposição didática na matemática/geometria espacial/ sólidos geométricos, construído através do software de uso livre: Geogebra.1
Exemplo de transposição didática em quadrinhos quando do estudo da moral kantiana, no curso em andamento:
Sobre a transposição didática, segundo Polidoro & Sigar (s/d p.3), essa deve ser uma transformação e não uma simples passagem de conteúdos e/ou conhecimentos científicos para os estudantes. Para os autores: “[…] significa selecionar e inter-relacionar o conhecimento acadêmico, adequando-o às possibilidades cognitivas dos alunos e exemplificando de acordo com a sua realidade circundante.”
Salientamos então o papel dos exemplos e da contextualização, para que ocorra a transposição didática, que não devem valer-se somente pela utilização dos livros didáticos e ou apostilas como escrevem Polidoro & Sigar (s/d, p.5), quando discutem também que esses
materiais instrucionais devem ser atualizados, visto as transformações da sociedade.
Nesse deslocamento dos saberes científicos para os escolares, temos a figura do professor, com relação aos conteúdos, métodos e práticas pedagógicas que segundo Gaboardi & Gaboardi (2017, p.45): “[…] Eles são o canal através do qual o conhecimento especializado torna-se sistematicamente acessível às crianças e adolescentes.”
Com relação às metodologias de ensino, várias são as discussões à respeito, como por exemplo: tradicional, freiriana, gamificação, ativas, sala de aula invertida, aprendizagem baseada em projetos e tantas outras que no nosso entender dependerão do contexto em que viermos a trabalhar.
Como estratégias de transformações e adaptações ao ensino podemos citar os recursos da contextualização e interdisciplinaridade como meios para a realização da transposição didática.
Assim contextualização segundo os Parâmetro Curriculares Nacionais (PCNs) para o Ensino Médio, seria um dos meios à evitar-se a compartimentalização, através da interdisciplinaridade a fim de despertar o interesse pela aprendizagem e pelo raciocínio.
Segundo os PCNs para o Ensino Médio em seu Art. 9º. I - na situação de ensino e aprendizagem, o conhecimento é transposto da situação em que foi criado, inventado ou produzido, e por causa desta transposição didática deve ser relacionado com a prática ou a experiência do aluno a fim de adquirir significado;
Quanto a interdisciplinaridade
A interdisciplinaridade consiste num diálogo entre conhecimentos, e não deve ser uma simples adaptação linear entre disciplinas. Segundo os PCNs para o Ensino Médio (2000, p. 75):“A interdisciplinaridade também está envolvida quando os sujeitos que conhecem, ensinam e aprendem sentem necessidade de procedimentos que, numa única visão disciplinar, podem parecer heterodoxos, mas fazem sentido quando chamados a dar conta de temas complexos.”
Como material de referência aos educadores, sugere-se teses e dissertações, periódicos, revistas científicas, entrevistas e outros materiais acadêmicos e materiais de referência aos alunos e ou participantes, visando a transposição didática, elencamos: livros didáticos, vídeos, animações virtuais para ciências exatas, histórias em quadrinhos, mais recentemente áudio-livro, podcast.
Referências
BRASIL. Parâmetro Curriculares Nacionais (PCNs). Ensino Médio. Brasília. 2000 Chaui M. Convite à Filosofia – São Paulo : Ática, 2000.
Japiassu, H; Marcondes, D. Dicionário básico de filosofia. Jorge Zahar Editor - Rio de Janeiro. 2001.
Kant I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho Companhia Editora Nacional; Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_kant_metafisica_costumes.pdf. Acesso em 20 nov 2020.https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4977851/mod_resource/content/1/transposicao%20didatica.pdf
Kant I. Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? (5 de dezembro de 1783)* Traduzido por Luiz Paulo Rouanet. Disponível em: https://www.airtonjo.com/download/Kant-Esclarecimento.pdf. Acesso em: 17 nov 2020.
Leite B.; Ribeiro T. Especialização em ensino de filosofia. EAD/UFPEL. Apresentação em Power Point. 2020.
Mendoza, M. A. G. LA TRANSPOSICIÓN DIDÁCTICA: HISTORIA DE UN CONCEPTO CONCEPTO, Revista Latinoamericana de Estudios Educativos. Volumen 1, Julio - Diciembre 2005, págs. 83-115
Polidoro, L.F.; Stigar, R. A Transposição Didática: a passagem do saber científico para o saber escolar. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano VI, n. 27.
Oliveira, M. V. X.; DANNER, L. F.; DANNER, F.; DORRICO, J. (Orgs.). As diferenças no ensino de filosofia: reflexões sobre filosofia e/da educação. -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.
Saviani, D. A FILOSOFIA NA FORMAÇÃO DO EDUCADOR. 10 Cf. FURTER, R - Educação e Reflexão, pp. 6-27. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/690805/mod_resource/content/1/A_filosofia_na_formao_do_educador.pdf.
Souza, H.J.S. Os princípios da razão prática. Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. Disponível em: http://books.scielo.org/id/kgx3n/pdf/souza-9788579830167-04.pdf.
3. Yves Chevallard e o conceito de transposição didática Disponível em : https://moodle.ufsc.br/mod/resource/view.php?id=1092469. Acesso em 17 nov 2020.
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